"Mesmo nas linguagens humanas não existe proposição que não implique o universo inteiro; dizer tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e tartarugas que ele devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi mãe do pasto, o céu que deu luz à terra."[Jorge Luis Borges]
Passei muitos anos da minha infância e adolescência com uma certa raiva dessa etiquetinha vermelha aí em cima. Era a etiqueta com o meu número de paciente, que eu tinha de grudar na roupa toda vez que ia ao Hospital da USP, em Bauru - e não foram poucas visitas.
Ir ao Centrinho era pra mim sinônimo de uma viagem longa pela madrugada, ter de dormir fora da minha cama e, o pior de tudo, passar por um monte de médicos e sentar em diversas cadeiras de dentistas, periodontistas, ortodontistas, ortognáticos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas ou qualquer outra especialidade médica que tivesse horário para me encaixar no dia.
Só tive alta mesmo do hospital faz uns 5 anos. E há poucos meses meus pais encontraram em alguma pasta daqui de casa um exemplar da velha etiquetinha vermelha. Chorei quando vi o email com a etiqueta escaneada. Mas não foi choro de raiva ou más lembranças. Mas foi o choro da gratidão.
Lembrar que muito do que sou e muito do que sou capaz de realizar hoje, tarefinhas bem simples do dia-a-dia, devo essas coisas à tantas pessoas. Tantos profissionais que aguentaram meu mau-humor infantil, tanta gente que fez do seu trabalho uma grande diferença em mim e em tantas outras crianças.
E a etiqueta vermelha, na época eu não compreendia, sinalizava um processo que ainda estava em andamento. E hoje, mesmo não sendo mais paciente da USP, reconheço que ela continua grudada em mim. Só que agora eu não sinto mais nenhuma raiva, mas alegria.
Não existem alguns pratos culinários que ficam muito mais gostosos depois de passados alguns dias após o preparo? E tem uns que ficam melhores ainda depois que são jogados no liquidificador, adicionados novos temperos e passados pelo óleo bem quente.
Numa metáfora bem rasgada, é o que acontece muitas vezes com a música. Eu adoro remixes. Não qualquer remix -- não há milagre que transforme certos intérpretes mais prazerosos. Conseguiria a dupla The Twelves fazer de Wanessa Camargo um hit pop electro? Fica lançado o desafio...
Em resposta à proposta do 3ernardo, fiz uma modesta lista com meus remixes preferidos. E vale aquela regra: o blógue é particular, e o critério daquela que vos escreve, também. Quem quiser arriscar, que dê o primeiro "play".
Top 15 - Faixas que ficaram ainda melhores depois do liquidificador:
Acho engraçado como, para muitas coisas na vida, a gente julga ter uma época adequada para acontecerem. Por exemplo, para ser um rebelde valentezinho e boca dura, é esperado que aconteça na adolescência. Para se ter medo do escuro e de criaturas babentas morando dentro do seu guarda-roupa, é bom que não passe da infância, depois já vira caso para análise. Para tirar a carta de motorista, faça-o assim que assoprar as velas dos 18 anos. Para começar a esquecer as coisas com direito a licença poética, espere chegar a, uh, mais de 70.
E quando as coisas acontecem fora do cronograma? E quando alguém só ganha a cópia da chave com idade bem próxima da maioridade penal? Quando começa a ler e escrever quando outras crianças ainda rabiscavam figuras amorfas com giz de céra? Quando dá o primeiro beijo depois de ter o título de mestrado? Ou quando alguém se vê responsável pela família antes de ter tido chance de terminar o colégio? Ou quando decide começar a primeira faculdade depois da maturidade?
Tem coisas que parecem ter toda a razão para se acontecer em determinadas fases. Mas tem tantas outras que não fazem o menor sentido. Nascemos e ganhamos uma agendinha de metas com alguns compromissos pré-fixados. Quantas frustrações a gente deve a esses prazos não cumpridos?
Acho que estou na fase de rasgar a agenda. E comprar uma nova. Sem datas nem pautas. Mas com muito espaço para ser bem preenchida, e bem colorida.
Já estamos fechando o sétimo mês deste acelerado ano, mas confesso que já cheguei meio cansada até aqui. Parece que foi tanta coisa que aconteceu, tanta mudança, novos ambientes, novos coleguinhas, nova rotina, novas percepções, novos vírus, novas crises, novos (e velhos também!) fantasmas, que já deu.
Já estou no mood de festejar o final do ano, abrir um guaraná champanhe e comemorar tudo o que foi de muito bom que aconteceu e desejar que venha um ano ainda melhor. Mas algo me diz que ainda não é hora -- sim, o calendário é o que me confirma isso mais claramente.
Fica, então, um rito de passagem simbólico aqui. Adeus velha semana, feliz semana nova! Que tudo do melhor se realize nas semanas que irão nascer. Dinheirinho que baste no bolso, saúde, paz e amor pra dar e receber.
...deve ser compartilhado. Tal como um pacote de biscoitos. Albert Camus dizia que não há problema em ser feliz, mas que é vergonhoso ser feliz sozinho. Concordo e vejo o quanto isso é contracultura hoje. Cada vez mais queremos ser felizes bem escondidinhos, sem dividir nada com os outros, ficar com todo o pacote, na nossa gorda solidão.
Uma amiga com o coração do tamanho do mundo sempre me diz que não vê graça em comer coisas gostosas sozinha. Quando ela traz guloseimas de suas viagens, sempre espera uma oportunidade para reunir o pessoal em volta da mesa e compartilhar as gostosuras estrangeiras.
Hoje tenho de dividir um texto tão bom que seria egoísmo lê-lo sozinha. Foi postado pelo meu amigo que tem um lado ilegítimo, mas que é legitimamente bem escrito.
Tão bom como um pacote de Passatempo no recreio da escola. Pegue seu biscoito aqui.
Ok, se você já é leitor da casa, sabe que o assunto por aqui é diversificado, às vezes meio ralo, mas quase nunca piegas. Não, pieguice, chororôs, novelas mexicanas, Adriana Calcanhoto, Prozac, Gabriel Chalita não fazem parte dos tags do Hora do Chá. Nada contra, mas nada a favor também.
Inesperadamente, uma querida amiga emprestou-me o livro "Carta a D.: História de um amor" e depois de poucas horas de leitura (tem apenas 70 páginas, Ed. Cosac&Naify) o livro do filósofo André Gorz ficou sendo um dos melhores livros não-ficção que já li.
O livro é o último redigido pelo escritor austríaco André Gorz e trata-se de uma carta à sua esposa, que há anos vem sofrendo de uma doença crônica. Os dois estavam na casa dos 80 anos de idade. A carta que André redige, uma declaração de amor lúcida, franca, onde ele refaz todo o percurso deles como casal, é terminada em junho de 2006. André relata a impossibilidade de imaginar a sequência da sua vida com a iminente morte de sua esposa Dorine e, em setembro de 2006, os jornais anunciariam a morte sincrônica do casal.
Mas toda a carta me inspirou um sopro fresco de vida, especialmente, quando André descreve a personalidade vivaz de sua esposa, em contraste com a sua própria. Apenas uma degustação:
"...eu havia chegado à idade em que a gente se pergunta o que fez da própria vida, o que queria ter feito dela. Talvez a impressão de não ter vivido a minha vida, de tê-la sempre observado à distância, de só ter desenvolvido um lado de mim mesmo, e de ser pobre como pessoa. Você era e sempre tinha sido mais rica que eu. Você se desenvolvia em todas as suas dimensões. Estava firme em sua vida, enquanto eu sempre me apressara a passar à tarefa seguinte, como se a nossa vida só fosse começar mais tarde." pg. 48.
Esbarrei com o trabalho do artista búlgaro Pravdoliub Ivanov e gamei. O portfolio dele, como diria um amigo, é in-crí-vel.
O semáfaro acima, um convite ao pensamento positivo (e, inevitavelmente, ao caos), é uma instalação intitulada Hope, Hopeful, Hopefulness, de 2005, realizada na República Tcheca.
Admiro quem tem o talento para ser um trend setter, aquele tipo de pessoa que consegue farejar à milhas e milhas vestígios de uma tendência, de algo que ainda não é mas que, inevitavelmente será. Sim, o trend setter é o profeta do cool. Aliás, ele percebe o cool quando ele ainda está trincando de gelado. Se a coisa já é cool e já está circulando nos nichos da moda, não é mais interesse do trend setter. Tenho uma amiga que é assim. E sem muito esforço, parece que ela tem um magnetismo para esse tipo de coisa.
Então abro parênteses para falar de algo que nem é mais tendência, porque já está aí, rolando pra lá e pra cá. Daqui a pouquíssimo tempo -- chuto que será daqui a umas poucas horas -- esse assunto já vai virar carne-de-vaca. Então, enquanto ainda é cool, vou colocar aqui alguns filmetes em stop motion e time lapse bem bacaninhas que estão circulando por aí. Não sei o que deu nessa turma que ultimamente tem sido produzidos tantos filminhos com essa técnica de animação.
Para quem está curtindo um mofozinho básico em casa enquanto a chuva e o frio estão do outro lado da janela, dá para passar um tempo vendo esses filmetes e clips:
Na minha primeira semana de tentativa de encontrar coisas bacanas sobre organização, alguns eventos ocorreram para provar forte que organizar-se é nadar contra a corrente. Você dobra a esquina e pronto: a desordem e o imprevisível estão logo ali. Ok, sem eles a vida seria uma pasmaceira sem fim, é vero.
Dentre os chacoalhões desta semana, o mais digno de nota foi um acontecimento que não se passava comigo desde... 5 anos de idade? Simplesmente estava tomando o ônibus para ir da agência para o aniversário de uma amiga quando me dei conta que a gravidade existe. E a formula da aceleração também. E que a combinação dos dois, subtraido à falta de apoio onde se agarrar é igual a um vexame momentâneo mais um número "x" de hematomas.
E está aí a Física na sua forma mais simples e rotineira. Até no meio do caos, há uma fórmula para tentarmos a compreender os fenômenos. Mas ainda assim, vamos combinar que nosso grau de controle sobre acidentes e incidentes é próximo de zero. Os acidentes aéreos, infelizmente, são uma prova de que a tentativa humana de fazer com que tudo flua em ordem é frágil demais.
Um dia vou projetar o meu home office. Até lá andei catalogando algumas referências de estantes de livros. Essa daí um amigo, sabendo que eu havia reformado a casa há pouco tempo, enviou para mim como sugestão. Infelizmente não sei a quem pertence o projeto, mas é sensacional.
De vez enquando tentar colocar as coisas sob um ângulo diferente traz resultados interessantes.
Quando entro no mood do "deixa a vida me levar", as coisas só tendem a ficar bizarras. A poeira acumula por cima dos móveis, perco o controle do meu extrato bancário, engordo, minhas meias somem da gaveta, não acho meus livros, perco arquivos, não respondo e-mails, descubro que o blush acabou na hora de me arrumar, fico sem leite na despensa, esqueço de telefonar para quem preciso, telefono para quem não preciso, durmo menos do que deveria, esqueço que tenho um blógue e por aí vai.
É o caos em forma de pessoa. Resumindo: vida, por favor, "não leva eu"! Deixa que eu mesma tento tatear o caminho, obrigada. Eu e Deus. A vida em si sabe de pouco.
Para isso o homem faz arte, não é? Para reorganizar o caos, ou pelo menos para transitar melhor por ele. Sim, mesmo na arte dita pós-moderna. Se o artista não tenta organizar o caos, pelo menos tenta lhe dar uma forma. E dar forma é torná-lo reconhecível.
Os próximos posts serão meio que temáticos. É a minha tentativa de encontrar coisas bacanas que ajudam a deixar o mundo menos desorganizado. Pode ser um modelo de sapateira diferente, um site para catalogar musicas, um texto literário, uma escola de meditação, um design de organizador de facas, uma obra visual.
Vamos que vamos na primeira versão saborizada do Hora do Chá!
Pois então, quase dois meses depois da última postagem, estamos nós aqui. A lentidão da atualização deste blógue continua a mesma, mas a vida... quanta diferença!
E já descobri que falta de novidades no meu blógue não é correlata à falta de novidades na minha vida. Simplesmente tenho de lidar com o fato de que, se meu trabalho fosse de cronista diária -- ou mesmo semanal -- eu morreria de fome. Ainda bem que não escrevo para ganhar meu pão! Só serviria para trabalhar num jornal ou revista de periodicidade equivalente à aparição do cometa Halley.
Aliás, anotem nas agendinhas: o próximo rolê do Halley pras bandas de cá do nosso quintal solar será em julho de 2061. Mas fiquem tranquilos (ai que saudades daquele trema gostoso...), acho que até lá publicarei mais alguns poucos posts neste blógue. Mas não garanto.