"Mesmo nas linguagens humanas não existe proposição que não implique o universo inteiro; dizer tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e tartarugas que ele devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi mãe do pasto, o céu que deu luz à terra."[Jorge Luis Borges]
...deve ser compartilhado. Tal como um pacote de biscoitos. Albert Camus dizia que não há problema em ser feliz, mas que é vergonhoso ser feliz sozinho. Concordo e vejo o quanto isso é contracultura hoje. Cada vez mais queremos ser felizes bem escondidinhos, sem dividir nada com os outros, ficar com todo o pacote, na nossa gorda solidão.
Uma amiga com o coração do tamanho do mundo sempre me diz que não vê graça em comer coisas gostosas sozinha. Quando ela traz guloseimas de suas viagens, sempre espera uma oportunidade para reunir o pessoal em volta da mesa e compartilhar as gostosuras estrangeiras.
Hoje tenho de dividir um texto tão bom que seria egoísmo lê-lo sozinha. Foi postado pelo meu amigo que tem um lado ilegítimo, mas que é legitimamente bem escrito.
Tão bom como um pacote de Passatempo no recreio da escola. Pegue seu biscoito aqui.
Ok, se você já é leitor da casa, sabe que o assunto por aqui é diversificado, às vezes meio ralo, mas quase nunca piegas. Não, pieguice, chororôs, novelas mexicanas, Adriana Calcanhoto, Prozac, Gabriel Chalita não fazem parte dos tags do Hora do Chá. Nada contra, mas nada a favor também.
Inesperadamente, uma querida amiga emprestou-me o livro "Carta a D.: História de um amor" e depois de poucas horas de leitura (tem apenas 70 páginas, Ed. Cosac&Naify) o livro do filósofo André Gorz ficou sendo um dos melhores livros não-ficção que já li.
O livro é o último redigido pelo escritor austríaco André Gorz e trata-se de uma carta à sua esposa, que há anos vem sofrendo de uma doença crônica. Os dois estavam na casa dos 80 anos de idade. A carta que André redige, uma declaração de amor lúcida, franca, onde ele refaz todo o percurso deles como casal, é terminada em junho de 2006. André relata a impossibilidade de imaginar a sequência da sua vida com a iminente morte de sua esposa Dorine e, em setembro de 2006, os jornais anunciariam a morte sincrônica do casal.
Mas toda a carta me inspirou um sopro fresco de vida, especialmente, quando André descreve a personalidade vivaz de sua esposa, em contraste com a sua própria. Apenas uma degustação:
"...eu havia chegado à idade em que a gente se pergunta o que fez da própria vida, o que queria ter feito dela. Talvez a impressão de não ter vivido a minha vida, de tê-la sempre observado à distância, de só ter desenvolvido um lado de mim mesmo, e de ser pobre como pessoa. Você era e sempre tinha sido mais rica que eu. Você se desenvolvia em todas as suas dimensões. Estava firme em sua vida, enquanto eu sempre me apressara a passar à tarefa seguinte, como se a nossa vida só fosse começar mais tarde." pg. 48.
Esbarrei com o trabalho do artista búlgaro Pravdoliub Ivanov e gamei. O portfolio dele, como diria um amigo, é in-crí-vel.
O semáfaro acima, um convite ao pensamento positivo (e, inevitavelmente, ao caos), é uma instalação intitulada Hope, Hopeful, Hopefulness, de 2005, realizada na República Tcheca.
Admiro quem tem o talento para ser um trend setter, aquele tipo de pessoa que consegue farejar à milhas e milhas vestígios de uma tendência, de algo que ainda não é mas que, inevitavelmente será. Sim, o trend setter é o profeta do cool. Aliás, ele percebe o cool quando ele ainda está trincando de gelado. Se a coisa já é cool e já está circulando nos nichos da moda, não é mais interesse do trend setter. Tenho uma amiga que é assim. E sem muito esforço, parece que ela tem um magnetismo para esse tipo de coisa.
Então abro parênteses para falar de algo que nem é mais tendência, porque já está aí, rolando pra lá e pra cá. Daqui a pouquíssimo tempo -- chuto que será daqui a umas poucas horas -- esse assunto já vai virar carne-de-vaca. Então, enquanto ainda é cool, vou colocar aqui alguns filmetes em stop motion e time lapse bem bacaninhas que estão circulando por aí. Não sei o que deu nessa turma que ultimamente tem sido produzidos tantos filminhos com essa técnica de animação.
Para quem está curtindo um mofozinho básico em casa enquanto a chuva e o frio estão do outro lado da janela, dá para passar um tempo vendo esses filmetes e clips:
Na minha primeira semana de tentativa de encontrar coisas bacanas sobre organização, alguns eventos ocorreram para provar forte que organizar-se é nadar contra a corrente. Você dobra a esquina e pronto: a desordem e o imprevisível estão logo ali. Ok, sem eles a vida seria uma pasmaceira sem fim, é vero.
Dentre os chacoalhões desta semana, o mais digno de nota foi um acontecimento que não se passava comigo desde... 5 anos de idade? Simplesmente estava tomando o ônibus para ir da agência para o aniversário de uma amiga quando me dei conta que a gravidade existe. E a formula da aceleração também. E que a combinação dos dois, subtraido à falta de apoio onde se agarrar é igual a um vexame momentâneo mais um número "x" de hematomas.
E está aí a Física na sua forma mais simples e rotineira. Até no meio do caos, há uma fórmula para tentarmos a compreender os fenômenos. Mas ainda assim, vamos combinar que nosso grau de controle sobre acidentes e incidentes é próximo de zero. Os acidentes aéreos, infelizmente, são uma prova de que a tentativa humana de fazer com que tudo flua em ordem é frágil demais.
Um dia vou projetar o meu home office. Até lá andei catalogando algumas referências de estantes de livros. Essa daí um amigo, sabendo que eu havia reformado a casa há pouco tempo, enviou para mim como sugestão. Infelizmente não sei a quem pertence o projeto, mas é sensacional.
De vez enquando tentar colocar as coisas sob um ângulo diferente traz resultados interessantes.
Quando entro no mood do "deixa a vida me levar", as coisas só tendem a ficar bizarras. A poeira acumula por cima dos móveis, perco o controle do meu extrato bancário, engordo, minhas meias somem da gaveta, não acho meus livros, perco arquivos, não respondo e-mails, descubro que o blush acabou na hora de me arrumar, fico sem leite na despensa, esqueço de telefonar para quem preciso, telefono para quem não preciso, durmo menos do que deveria, esqueço que tenho um blógue e por aí vai.
É o caos em forma de pessoa. Resumindo: vida, por favor, "não leva eu"! Deixa que eu mesma tento tatear o caminho, obrigada. Eu e Deus. A vida em si sabe de pouco.
Para isso o homem faz arte, não é? Para reorganizar o caos, ou pelo menos para transitar melhor por ele. Sim, mesmo na arte dita pós-moderna. Se o artista não tenta organizar o caos, pelo menos tenta lhe dar uma forma. E dar forma é torná-lo reconhecível.
Os próximos posts serão meio que temáticos. É a minha tentativa de encontrar coisas bacanas que ajudam a deixar o mundo menos desorganizado. Pode ser um modelo de sapateira diferente, um site para catalogar musicas, um texto literário, uma escola de meditação, um design de organizador de facas, uma obra visual.
Vamos que vamos na primeira versão saborizada do Hora do Chá!
Pois então, quase dois meses depois da última postagem, estamos nós aqui. A lentidão da atualização deste blógue continua a mesma, mas a vida... quanta diferença!
E já descobri que falta de novidades no meu blógue não é correlata à falta de novidades na minha vida. Simplesmente tenho de lidar com o fato de que, se meu trabalho fosse de cronista diária -- ou mesmo semanal -- eu morreria de fome. Ainda bem que não escrevo para ganhar meu pão! Só serviria para trabalhar num jornal ou revista de periodicidade equivalente à aparição do cometa Halley.
Aliás, anotem nas agendinhas: o próximo rolê do Halley pras bandas de cá do nosso quintal solar será em julho de 2061. Mas fiquem tranquilos (ai que saudades daquele trema gostoso...), acho que até lá publicarei mais alguns poucos posts neste blógue. Mas não garanto.
Que os ruídos fazem parte de qualquer processo de comunicação é fato. O músico e performático estadunidense John Cage sabia tanto disso que gostava de enfiar os objetos mais esquisitos dentro do seu piano de cauda, só para que, quando o piano fosse tocado, estranhos ruídos e interferências sonoras acontecessem. Ele chamava essas performances de "peças para piano preparado". (em off, mas não menos importante: Cage também era um aficcionado por fungos e um colecionador de cogumelos.)
Então, a introdução erudita acima era só para dar o start para a breve cena insólita que aconteceu hoje. Falando em ruído, a cena se passou comigo sentada na cadeira da dentista. Rolou o seguinte diálogo(?):
[dentista] -- uma vez eu conheci um publicitário, se chamava [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- você já ouviu falar dele? [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- professor do curso de publicidade [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- acho que tem essa faculdade em São Paulo, né? [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- mas o sobrenome dele era esse [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- não sei de qual agência ele é, mas ele me falou da [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- sabe qual é? [broca] -- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz [dentista] -- mas ele é bem conhecido. Pode cuspir.
Nada como aproveitar para expandir nossa network no consultório dentário.
Por mais que as manhãs ensolaradas e os picolés de limão queiram me convencer de que a vida é leve, sempre esbarro em algo esquisito e escuro que volta e meia dá as caras. A vida não é leve, mas nem tampouco feita toda de chumbo. Só tenho que reconhecer de que estamos cercados de coisas estranhas. E de coisas fantásticas também.
Uma das coisas mais frágeis e que pode tornar, de repente ou progressivamente, a vida de qualquer um numa sucessão de eventos bizarros, definitivamente está mais entranhado em nós do que gostaríamos de admitir: esse algo que chamam de mente. Nem me arrisco a definir o que é, extamente, a "mente", já que até a neurociência muda de idéia sobre ela a cada novo artigo publicado.
Mas que a mente pode causar estragos, isso é. Uma desregulagenzinha de nada, uma sinapse que não funciona mais ou que passa a funcionar demais, pronto. Endoida, invalida, alucina, mortifica, estrebucha.
Fico assustada com a loucura. Só me joga na cara a nossa fragilidade. Expõe o fio de seda que segura a lucidez à nossa vida. Assusto com a minha incapacidade de ajudar e de, nem com muito esforço, conseguir compreender.
Gostaria de que a vida fosse toda leve, de doce de algodão. Mas o desatino surge tão perto, toma forma de um rosto conhecido, e eu não sei como lidar. A loucura existe. E as manhãs de sol também. A vida é estranha. Por isso é fantástica.
Quem disse que não pulei o Carnaval? Muito pop-electro-enredo, alegorias de sonhos e travesseiros, boas evoluções de leituras, não precisei receber quem não gostasse nem fazer vezes de mestre-sala nem portar bandeira de ninguém, vesti a fantasia de pessoa sossegada e sem urgências nessa vida, caminhei na harmonia da brisa marítima ao som da bateria eletrônica das musiquinhas do iPod e empenhei-me na comissão de frente da fila do cinema para garantir meu ingresso.
Apuração encerrada, nota total 359,25. A escola carnavalesca Unidos da Vila Sossego é a campeã do Carnaval Sem Ziriguidum 2009!
Pois é, mais uma daquelas semanas em que só sobra o pozinho da rabiola. Mais uma daquelas semanas em que o sono não vence o cansaço e que não sobra forças nem para redigir um post decente depois do expediente.
Ô minha gente, não precisa ser assim, né? Não é pedir demais querer ter energia para viver além da jornada de trabalho, ou é? Em parte a culpa é minha, em parte não. Mas, de qualquer forma, não me tiro da reta, pois sei que preciso ter mais disciplina para otimizar meu tempo. Inclusive para impor limites ao meu trabalho e a mim mesma.
Preciso ler de novo Domenico de Masi, preciso de ócio criativo, preciso trabalhar só as 8hs por dia (pelo menos na maior parte da semana!), preciso de uma dose de guaraná que chegue até o fundo da alma: energia para viver mais, sonhar mais, amar mais, caminhar mais, desenhar mais, ler mais, planejar mais, criar mais, conversar mais, orar mais, meditar mais...
O que fazer quando as mudanças esperadas não acontecem? Enfiamos o pé na porta ou esperamos com doçura que alguma janela resolva se abrir? Qual o limite entre precipitação e a passividade?
Bem que Deus poderia deixar comentários nos nossos posts de dúvidas existenciais...
...estamos sempre buscando o que nos acolhe, o que nos é familiar. Andamos tanto, procuramos tanto, mas nunca nos adaptamos ao efeito "descolado" constante: é impossível viver "descoladamente" sempre, é insano querer sempre ser estrangeiro. Não é natural. Queremos pertencer e nos acoplar: desejamos ser apenas mais uma peça de um todo que faça sentido.
Essas elocoubrações vieram da leitura de Henri Nouwen, um padre holandês muito bom sujeito. Ganhei o livro A volta do filho pródigo: a história de um retorno para casa de uma querida amiga, e tem sido bacana ler novos modos de pensar uma história tão lida e relida como a parábola de Jesus sobre o filho que pede ao pai a antecipação da sua herança e sai pelo mundo, com o propósito de curtir a vida adoidado.
O final da parábola é conhecido: o filho torra a grana recebida na vida boa, mas uma hora a farra acaba: o caixa fica zerado e, como canta o velho blues, nobody knows you when you're down and out. Ou seja, o rapaz fica na pendura, ninguém o ajuda e é obrigado a arranjar um subemprego para ter o que comer. Até que um dia ele se lembra que até os empregados da casa do pai dele eram mais bem tratados do que ele agora. Ele resolve voltar, só que pede ao pai para ser tratado como empregado, já que ele não merecia voltar a ser tratado como filho, depois da desfeita de ter deixado a casa do pai. Só que o pai, muito feliz com o retorno do filho rebelde, perdoa-o e aceita-o de volta, como o filho perdido que foi achado.
Henri Nouwen fala da dificuldade em se descobrir numa terra estranha, cercado por desconhecidos: "Quando o filho mais jovem não era mais considerado um ser humano pelas pessoas à sua volta, sentiu a profundeza de seu isolamento, a mais completa solidão que alguém pode sentir.[...] Havia se desligado tanto do que dá a vida -- família, amigos, comunidade, relacionamentos e mesmo alimentação -- que a morte seria naturalmente o próximo passo." (p. 53)
Não há lugar como a nossa casa. É sempre para onde estamos tentando retornar. Ou encontrar pela primeira vez.